ISO 9001:2026: as 6 principais mudanças da FDIS
A FDIS da ISO 9001:2026 confirma seis mudanças relevantes antes da publicação oficial da norma. Os destaques são a separação entre riscos e oportunidades, a inclusão da cultura da qualidade e do comportamento ético, e o fortalecimento da gestão de mudanças. Neste artigo, analiso cada alteração e seus impactos práticos para empresas certificadas.
No mês passado foi publicada a FDIS da ISO 9001:2026, a última versão antes da publicação final. A partir daqui, dá para falar em mudanças de verdade. Neste primeiro post de uma série semanal, eu compilo as principais mudanças da ISO 9001:2026 apontadas pela própria FDIS e comento cada uma. Nos próximos textos, aprofundo ponto a ponto.
O que é a FDIS da ISO 9001:2026 (e por que já dá para falar em mudanças)
FDIS é a sigla para Final Draft International Standard: a última etapa antes da publicação. Nesta fase, o texto não muda mais. A votação (aberta até 09/07) serve apenas para aprovar, ou não, a publicação. Se a norma não for aprovada, o processo recomeça do zero, com um novo work draft.
Com o texto final já definido, sinceramente não vejo motivo para a mudança não ser aprovada. Por isso, decidi publicar semanalmente a minha análise desta nova versão, usando como base as mudanças que o próprio documento cita como principais.
As 6 principais mudanças da ISO 9001:2026
1. Termos e definições essenciais na Cláusula 3
A Cláusula 3 passa a incluir um número limitado de termos e definições, e a ISO 9000 continua sendo a referência normativa para todos os termos da qualidade.
O que achei estranho: tanto nessa Cláusula 3 quanto na ISO 9000:2026 há a definição de risco, mas não há definição de oportunidade, justo nesta versão que separa os dois conceitos, como veremos adiante. Na definição de risco, o texto segue falando em efeitos positivos ou negativos, com uma nota dizendo que "a palavra 'risco' é, algumas vezes, utilizada quando existe a possibilidade apenas de consequências negativas". Acredito que essa ausência vai fazer falta no entendimento geral do que se espera da nova abordagem de oportunidades.
2. Cultura da qualidade e comportamento ético
A cultura da qualidade e o comportamento ético passam a ser tratados nos requisitos, especialmente em relação à liderança, à conscientização e ao ambiente para a operação dos processos.
Para mim, apesar de ser a mudança mais celebrada desta revisão, é também o ponto mais frágil. A definição de cultura da qualidade (na ISO 9000:2026) diz: "A cultura da qualidade organizacional refere-se aos valores, crenças, histórico, atitudes e comportamentos observados, compartilhados pelas pessoas dentro de uma organização." Ou seja: existe um aspecto subjetivo nessa observação. E o texto continua: "Evidências do comprometimento da alta direção com a promoção de uma cultura da qualidade organizacional são essenciais."
Isso me deixa especialmente curiosa para entender como os auditores vão tratar essa evidência de cultura da qualidade. Será que começaremos a ter auditorias não anunciadas também na ISO 9001, para entender melhor o dia a dia da empresa? Fica a provocação, e o tema de um próximo post.
3. Separação entre riscos e oportunidades
Riscos e oportunidades passam a ser claramente distinguidos, com consideração separada das ações para tratar cada um.
De todas as mudanças, esta é a que tem o meu coração. Enquanto o risco já foi bem incorporado pelas empresas, a oportunidade virava confusão: não era raro confundirem oportunidade com melhoria. Vou aprofundar em outro post, mas vale destacar: oportunidade é uma ocasião propícia para executar ou implementar uma ação que te leva mais perto do seu objetivo estratégico. Pode ser uma melhoria, sim, mas também pode ser algo novo: uma parceria, um novo produto, uma nova linha. Assim como tínhamos o pensamento baseado no risco, ter agora o pensamento baseado em oportunidade pode ser um game changer importante, para a empresa que olhar este novo requisito com carinho.
4. Gestão de mudanças fortalecida
Os requisitos relacionados às mudanças no sistema de gestão da qualidade foram reforçados para apoiar o alcance dos resultados pretendidos.
Agora o item de planejamento de mudanças tem 3 novas alíneas: a comunicação das mudanças, o monitoramento e a avaliação da eficácia das mudanças, e como os resultados serão analisados. Particularmente, gosto bastante dessas inclusões. Muitas vezes este item era preenchido perto da auditoria, de proforma, porque a empresa lembrava de uma mudança e fazia o registro só para constar. Quando falamos de comunicação e análise de resultado, não dá para "criar registro para a auditoria": não há como forjar evidência de comunicação sistemática. Isso também leva a empresa a um pensamento mais sistêmico em relação ao sistema.
Sinceramente, o profissional da qualidade que vive "correndo atrás" da informação tem aqui uma grande oportunidade (já usando o conceito desta nova versão) de trazer a qualidade para perto das decisões estratégicas, e, com isso, levar a qualidade de vez para o board da empresa.
5. Anexo A com conteúdo explicativo aprimorado
O Anexo A foi revisado para oferecer esclarecimentos sobre a estrutura, a terminologia e a intenção dos requisitos, como texto informativo, sem introduzir requisitos adicionais.
6. Remoção do Anexo B
O antigo Anexo B trazia informações sobre outras normas do ISO/TC 176. Essas referências agora estão no Anexo A e no site do ISO/TC 176.
Gosto de ter um único anexo: para o entendimento geral da norma, achei que ficou bem mais didático e as explicações estão boas, com exceção do item A.4.3 (Escopo), que sinceramente achei confuso. Também trarei este assunto em mais detalhe adiante.
ISO 9001:2026 e Inteligência Artificial: cuidado com a desinformação
Já vi várias publicações afirmando que a nova versão "inclui Inteligência Artificial". Aqui vai um alerta importante: não há requisito nem nota sobre IA nos requisitos da ISO 9001:2026.
O que existe está no Anexo A, nos itens A.7.1.3 e A.7.1.4, que tratam de tecnologias emergentes como critério de infraestrutura e de operação dos processos, indicando que elas trazem riscos e oportunidades para a operação. Ou seja: nada de sair fazendo POP de inteligência artificial. Não que o tema não seja relevante (é relevantíssimo), mas precisa ser tratado com a seriedade que ele tem no nosso contexto de trabalho, e não como um espantalho.
O que vem na série
Este é o primeiro post de uma série semanal em que aprofundo cada uma dessas mudanças da ISO 9001:2026. Nos próximos textos, começo a destrinchar ponto a ponto: da cultura da qualidade às auditorias, passando pela separação entre riscos e oportunidades.
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