Resposta rápida

A ISO 9001:2026 exige que a alta direção demonstre, de forma auditável, compromisso com a cultura da qualidade e o comportamento ético. A norma indica a ISO 10018 como metodologia: entender a cultura desejada, avaliar a cultura atual, fechar lacunas e sustentar com indicadores. A NR1 já fiscaliza riscos psicossociais desde 26 de maio, conectando diretamente liderança ética à saúde mental e, por consequência, à qualidade dos resultados entregues.

Se um auditor chegasse hoje e pedisse a evidência da sua cultura da qualidade, o que você mostraria? Essa foi a pergunta que abriu a live semanal da Templum sobre comportamento ético e cultura da qualidade, conduzida por Daniela Albuquerque, sócia-diretora técnica da empresa. E a pergunta não é retórica: com a aprovação da nova versão da ISO 9001, cultura da qualidade deixa de ser tema "soft" e passa a ser requisito auditável.

ISO 9001:2026: o que já está confirmado

A votação da nova revisão da ISO 9001 foi concluída e a versão final foi aprovada. A publicação oficial pela ISO é esperada para setembro — o conselheiro técnico da Templum, Nigel Croft, estima o dia 15 de setembro, embora a data exata ainda não tenha sido confirmada. A ABNT já está em fase avançada de tradução, e a expectativa é que a versão em português seja publicada em sequência à versão internacional.

O que muda: cultura da qualidade entra na cláusula de liderança

A nova revisão traz duas atualizações diretas sobre o tema:

  • Na cláusula de liderança, um novo trecho estabelece que a cultura da qualidade e o comportamento ético devem ser demonstrados como compromisso explícito da alta direção — e precisam ser observados e auditados.
  • Na cláusula 7.4, ambiente para a operação de processos, uma nota esclarece que os fatores sociais e físicos desse ambiente podem ser influenciados pela cultura da qualidade organizacional e pelo comportamento ético.

Há também uma conexão com a cláusula de contexto da organização (contexto externo e interno contribuindo para a cultura da qualidade), que será tratada com mais profundidade em outro momento.

Na prática, isso significa que a cultura da qualidade precisa parar de ser um conceito abstrato e passar a ter uma metodologia de avaliação, lacunas identificadas e evidências rastreáveis — do mesmo jeito que qualquer outro requisito do sistema de gestão.

A ponte com a NR1: comportamento ético também é obrigação legal

Enquanto a ISO 9001 caminha para tornar a cultura da qualidade auditável, a legislação brasileira já tornou os riscos psicossociais no trabalho uma obrigação fiscalizável. Desde 26 de maio, empresas passaram a ser fiscalizadas quanto à NR1 atualizada, que incluiu expressamente fatores como comportamento de liderança, sobrecarga e assédio no inventário de riscos — no mesmo patamar de riscos físicos, químicos e biológicos.

Os números que sustentam essa mudança são expressivos:

  • 15% dos adultos em idade ativa apresentam algum tipo de transtorno mental;
  • 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos por ano no mundo com depressão e ansiedade;
  • o impacto em produtividade é estimado em US$ 1 trilhão por ano — próximo ao PIB da Argentina.

A leitura da Templum é direta: liderança antiética e sobrecarga de trabalho impactam a saúde mental, e a saúde mental impacta diretamente a qualidade dos processos e dos resultados entregues. Por isso a ISO 9001:2026 e a NR1, apesar de serem normas de natureza completamente diferente, convergem para o mesmo ponto — e o anexo do FDIS chega a mencionar que o tema de cultura da qualidade e comportamento ético pode ser tratado em conjunto com outras normas de saúde e segurança ocupacional, como a ISO 45003 (saúde mental no ambiente de trabalho).

ISO 10018: a norma-ponte citada pela própria ISO 9001

O FDIS da ISO 9001:2026 não deixa a empresa sem direção sobre como implementar isso: ele indica a ISO 10018, publicada em 2022, como referência metodológica para o tema. A norma ainda não tem versão oficial em português — a tradução usada na live foi feita pela própria Templum.

Segundo a ISO 10018, cultura é o "conjunto integrado de valores compartilhados, crenças, história, ética, atitudes e comportamentos observáveis" de uma organização. E cultura da qualidade é a cultura que apoia o alcance da política, dos objetivos e da entrega de produtos e serviços que atendem às necessidades e expectativas de clientes e demais partes interessadas.

Ou seja: não existe uma "cultura da empresa" separada de uma "cultura da qualidade". Existe uma única cultura, com comportamentos observáveis — alguns favoráveis ao resultado, outros não — e é sobre esses comportamentos que a organização precisa agir.

A metodologia da ISO 10018 em 4 passos

A norma propõe um ciclo relativamente simples de aplicar:

  1. Entender a cultura desejada — o que a organização espera da sua cultura.
  2. Avaliar a cultura atual — via autoavaliação e pesquisa com o time.
  3. Fechar as lacunas entre a cultura desejada e a cultura real, incluindo lacunas de comportamento ético.
  4. Sustentar a cultura com indicadores, processos e procedimentos.

Os 8 estilos de cultura organizacional

Para ajudar a identificar a cultura atual, a live trouxe um framework de oito estilos de cultura organizacional — aprendizado, resultado, propósito, autoridade, segurança, ordem, cuidado e prazer. Nenhum estilo é "melhor" ou "pior": cada um tem vantagens e desvantagens, e a maior parte das empresas se reconhece predominantemente em um deles. Alguns exemplos citados durante a live, a título de ilustração de cada estilo:

  • Aprendizado — Google, com experimentação constante e tolerância a erros;
  • Resultado — Amazon, com forte orientação a metas;
  • Propósito — Patagonia, com sustentabilidade no centro das decisões;
  • Autoridade — Tesla, com decisões centralizadas e ritmo definido no topo;
  • Segurança — Petrobras e Volvo, com critérios rígidos de segurança;
  • Ordem — McDonald's, com processos altamente padronizados;
  • Cuidado — Starbucks, com foco em relacionamento e pertencimento;
  • Prazer — Zappos, um dos cases mais citados mundialmente de cultura organizacional.

Case real: como a Templum aplicou a ISO 10018 internamente

A Templum se identifica como uma cultura de resultado — o time é fortemente orientado por metas. Esse estilo tem vantagens conhecidas (melhor execução, foco externo, capacidade de bater metas) e desvantagens também conhecidas (risco de falhas de comunicação e colaboração, e maiores níveis de estresse e ansiedade).

Para diagnosticar isso na prática, a empresa aplicou com o próprio time a autoavaliação e a pesquisa de cultura da qualidade sugeridas no anexo da ISO 10018. Os resultados confirmaram exatamente o padrão esperado do estilo "resultado": o time entende claramente o direcionamento estratégico da empresa, mas há uma lacuna de comunicação entre o trabalho de cada pessoa e o resultado de qualidade — ou seja, as metas são claras, mas a conexão entre "o que eu faço no dia a dia" e "o resultado de qualidade da empresa" ainda precisa ficar mais explícita. A pesquisa também confirmou o risco de estresse e ansiedade associado a esse estilo de cultura, o que já havia motivado a Templum a estruturar um projeto interno de saúde mental.

A partir dessas lacunas, a empresa estruturou um plano de ação rastreável, incluindo:

  • classificação dos riscos psicossociais por cargo, dentro do módulo de gerenciamento de riscos;
  • criação de um projeto interno de saúde mental, com temas como campanha de conscientização (Setembro Amarelo), comunicação do atendimento psicológico gratuito oferecido aos colaboradores, comunicação do canal de denúncias e reforço de feedback/PDI;
  • produção de material de onboarding conectando a cultura da qualidade ao resultado estratégico da empresa;
  • pesquisa de satisfação e clima organizacional semestral.

Como indicadores de sustentação, a empresa passou a acompanhar, entre outros: índice de satisfação dos colaboradores (semestral), quantidade de denúncias registradas no canal interno, taxa de conclusão de treinamentos e atendimento a prazos de projeto.

Um evento que já existia na rotina da empresa — o "Grow Together", encontro semanal de conexão entre os times — passou a ser citado como evidência prática e contínua da cultura da qualidade em ação, agora com pauta e indicadores associados.

O que fazer a partir de agora

Não existe ainda um prazo oficial de transição definido para a ISO 9001:2026, mas o período de transição que normalmente acompanha uma revisão de norma serve exatamente para isso: dar tempo para a empresa evoluir em direção ao novo requisito. Na prática, isso significa:

  • identificar qual é o estilo de cultura predominante na sua organização;
  • aplicar a autoavaliação e, se possível, uma pesquisa de cultura da qualidade com o time;
  • mapear as lacunas entre a cultura desejada e a cultura real — incluindo lacunas de comportamento ético;
  • estruturar um plano de ação com evidências rastreáveis;
  • estabelecer indicadores que sustentem esse acompanhamento ao longo do tempo.

A cultura da qualidade e o comportamento ético deixam de ser tema de palestra pontual e passam a ser, com a ISO 9001:2026, requisito com metodologia de avaliação e evidência auditável — na mesma linha em que a NR1 já trata riscos psicossociais como obrigação legal fiscalizável. As duas frentes, apesar de terem origens completamente diferentes, apontam para o mesmo lugar: a empresa precisa demonstrar, com dados e não apenas com discurso, como cuida das pessoas que entregam o seu resultado.

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